sábado, janeiro 12, 2008

COMO UM ARTISTA, NO PALCO, ESPERA A PERSONA.

Sempre considerei a Arte o caminho mais fácil até o coração humano. E sempre considerei que, se o mundo precisa mudar, então as pessoas precisam mudar primeiro; e, se as pessoas precisam mudam primeiro, então precisam ser convencidas de que devem mudar; e, se devem ser convencidas de que devem mudar, então precisam sentir isso dentro do coração. Pois as pessoas não são convencidas meramente pela admirável razão.

Eu posso saber com minha cabeça um milhão de coisas: que é preciso manter uma postura otimista e confiante para ser um líder, que o mundo precisa poluir menos, que é necessário aprender matemática. Mas nunca vou evoluir significativamente em nada se não acreditar a ponto de chorar, ou pelo menos a ponto de ficar seriamente comovida...

Comoção. Emoção.

E é por isso que amo tanto o Teatro.

Existe uma série de outras formas de arte. Um texto bem escrito é um achado. É amável escutar uma música cantada na qual a voz do cantante transmita segurança suficiente pra que não se fique tenso à iminência da nota mais difícil. Conheço várias pinturas insubstituíveis. Mas o Teatro.

Não sobrepuja nenhuma das outras formas de arte, não não

Mas fala mais claro. Uma pessoa pode morrer de preguiça de ler livros: escutará o Teatro. Uma pessoa pode não se comover com uma bela música, e pode até não entender bem uma peça dramática: não deixará de dar atenção ao Teatro. Pode não atentar bem à mistura de cores de um quadro, ou não enxergar um desenho que está desenhado à sua frente numa tela: certamente olhará, impulsiástica, o colorido de um figurino a balançar, vivo e defronte de si.

Eu sempre quis me ocupar de coisas importantes. Sempre sempre. Por isso já pensei em ser missionária. Por isso trabalho com dinheiro, e me formei em Comércio. Por isso amo tanto Teatro.

Porque acredito que as transformações nascem no coração dos homens, e no coração dos homens somente.

A Poesia é sentimento consolidado. A Prosa é um sentimento raciocinado. O Teatro acontece. Ele te leva de um a outro ponto do cérebro. Uma bagunça.

Tem um ator que escreveu que imaginar a vida sem palco e sem luzes seria muito triste. Em cima do palco, se você olhar, vai ver as pessoas por dentro. Mas você poucas vezes vê ou olha, porque está ocupado existindo. E é desafiadoramente boa a sensação de falar e ser ouvido.

(Detesto não ser ouvida. Me tira do sério. Me altera o humor. Coloque um cliente que fala alto e não me escuta na minha mesa e veja o que acontece...)

Sobre o ator, parafraseio a “Autopsicografia” do Pessoa:

“O [ator] é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que [sentem] o que [interpreta],
Na dor [sentida sabem] bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”


Como transmitir um sentimento? Sentindo. Como fazer os outros acreditarem? Acreditando. Como comover? Se deixando comover primeiro.

E isso é muito desumano. É por isso que a profissão do ator não é jamais digna. Não, ele não vai ser recompensado de uma maneira justa no final. Não esse ser que muda de idéias e ideais. Não esse ser que muda de corpo. Não esse ser que interpreta demônios e anjos.

E é por isso que eu entendo algumas coisas. Conheça um ator e verá alguém desgastado. Um ser que mostra as tripas todas as noites de espetáculo por dinheiro. Por paixão. Por atenção. Por sabe-lá-o-quê.

Porque, senhores. Se você pega o instrumento mais precioso e o usa pra adornar um porco, eis a figura mais ridícula que possa fazer. E são assim as pessoas que interpretam peças sem uma finalidade digna, E entretenimento é uma finalidade digna. Ora, entendam vocês, com suas próprias interpretações e mentes, o que não seria finalidade digna. Não me exijam respostas.

O ator só tem o direito de entrar no palco quando acreditar. Se não for assim, pagará caro por isso. Pagará com a própria vergonha, pagará com o ridículo. Aliás, nem é considerado ator aquele que entra no palco sem acreditar.

O ator consciente de si é sempre generoso. Empresta o corpo, e empresta a alma pra um personagem. Resguarda o espírito pra si. E a intenção.

O ator é miscelânea, ele jura que, de si, pode tirar coelhos da cartola. O ator é a mania de grandeza em carne e osso. A fraqueza mais redutível.

A gente sonha sonha em ser estrela.

Mas é que, no fim, o que importa mesmo é deixar a pequena luz que Deus nos deu brilhar. Dentro da vida que já temos. E é uma descoberta meio horaciana: Deus tem mais sonhos e planos para a minha, e para a sua, vida do julga a vã filosofia. E se ESSA É A MINHA pequena LUZ. VOU DEIXAR BRILHAR.

sim brilhar sim brilhar sim brilhar...

2 comentários:

Madame disse...

Que post bonito, L.
No dia em que fiz a lista de preferências para colocar no meu blog citei também o quesito arte. Escolhi a dança, mas não sei se conseguiria descrever meus sentimentos pela dança de forma tão bonita. Vou mostrar pra minha irmã, teatro é a vida dela.
Beijo, boa semana. Espero que esteja bem!

Denis Barbosa Cacique disse...

Megapost!! Assim é que se faz. Parabéns, L.

Acredita que nunca fui a um teatro? Sim, já assisti incontáveis encenações. Na escola, na rua, no trabalho, na faculdade, no restaurante, etc... Mas nunca fui a um teatro. Que vergonha!

Bj