DO DIREITO. DOS FATOS. E DOS PATOS.
A cliente entrou. Pegou a senha. Aguardou sua vez. Foi chamada para a mesa 3, onde trabalha meu amigo B. Mas não se soube expressar. Meu colega, que não nasceu para decifrador de enigmas, e nem tem talento para Sophie Neveu ou Robert Langdon, quando a ouviu dizer que tinha sido orientada a retornar hoje por mim, solicitou-lhe que tratasse comigo mesmo o que quer que tivesse a tratar.
Sentou na minha mesa. Eu com trabalho-trabalho-trabalho, pelas gavetas e brechas da mesa e mente (não faço atendimento ao público Pessoa Física, a menos que seja necessário). Perguntei:
- A senhora pegou a senha?
Ela me mostrou a senha por entre os dedos.
- A senhora já foi chamada?
Confusão. Ela olhou para o lado esquerdo, um tanto quanto ressentida por não ter sido decifrada pelo B.
- Aquele rapaz me mandou vir falar com a senhora. Eu quase que perguntei a ele se não tinha estudado pra estar aqui atendendo as pessoas.
"Tinha estudado" é uma expressão curiosa. Como se "bancário" fosse alguma espécie de curso superior, pensei.
O caso dela era simples de fato. Mas nada prático.
Precisava abrir uma conta. E isso já tinha me explicado ontem. Pra receber a pensão do seu marido que morreu. Tinha uma carta, do Ministério dos Transportes, que através desta - carta - solicitava ao Banco que abrisse a conta para a sra. Fulana de Tal, o nome dela lá, escrito no documento. Tinha levado também identidade, cpf, e um comprovante de residência no nome do sogro.
- Perfeito, disse eu(ontem). A certidão de casamento, por favor
- Mas eu não sou casada, disse ela.
- Declaração de união estável?
- Tenho em casa.
E foi pra isso que voltou hoje. Voltou com a certidão de união estável. Um processinho de grossas folhas, estando, na última delas, atestado pelo juiz como reconhecida aquela união. Para comprovar o vínculo (que existiu) entre ela e o sr. cliente-da-Cepisa (cujo nome estava no talão de luz, e era pai do marido). E, assim, comprovar sua residência. Para abrir a conta, para receber a pensão do marido que morreu.
- Pronto, senhora (disse-lhe eu hoje), só está faltando ir a um cartório para reconhecer a firma dessa pessoa que assinou a carta de solicitação de abertura de conta.
- Ainda falta isso?
- É, senhora. Falta. Traga que abro a conta. Quando voltar, pode vir direto para a minha mesa - facilitei
E tempos depois, passando das 12hrs, ela voltou. Ficou de frente comigo. E me apresentou cópias autenticadas em cartório da cartinha de solicitação de abertura de conta.
- A senhora me trouxe cópias. Eu pedi que reconhecesse a firma. Se quisesse cópias, eu mesma poderia tirar. Preciso que alguém do cartório reconheça a firma, essa assinatura aqui, ó - grifei
Olhos de pânico. Naquele instante, eu soube que não saberia fazer o que pedi. E foi quando ela disse:
- dá vontade é de me jogar no chão e sair rolando.
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Parei. Intercedi por ela junto à Gerente. Fiz telefonemas, que por favor me enviassem cartões de autógrafo pelo fax, contei a história dela pra mais uma ou duas pessoas. E resolvi o problema.
3 comentários:
Eu já trabalhei com atendimento ao público aqui no hospital, e achava tremendamente chato ter que ser uma pessoa chata, digo, chata por causa dessas coisinhas burocráticas: "o maldito carimbo com o crm do dr. que atendeu a sra"
é Lena, acho q vc já está mais do q preparada para ouvir o puro jazz
procura Kind of Blue, miles davis
e eu ainda não sei pq tenho conta no blogger õ.Õ
estou delicadamente blasè
desculpa-me qualquer engano
se eu te falei o que era
absolutamente somente meu...
desculpa-me por favor
é que acordei lilás
e não quero me livrar da cor
pensando bem, melhor ir partindo
desuculpa-me Lena, é só
um poeminha de um poetinha
que prefere sonhar acordado
e chorar sorrindo...
bye bye brasil
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