quarta-feira, novembro 08, 2006

ATOS 17

Sabe o discurso de Paulo no Areópago, em Atenas?

As pessoas em Atenas tinham uma única ocupação: dizer e ouvir dizerem das novidades (At 17:21). E, naquela cidade, Paulo resolveu pregar o cristianismo. Pessoalmente, eu confesso que muitas vezes me calo. E, outras tantas, falo menos do que deveria. Mas isso não é porque eu não ame ao meu Deus, Ele sabe bem que não. Não sei se já aconteceu com vocês: às vezes não se fala algo de alguém a quem se ama muito porque não se gosta, não se gosta mesmo, que façam chacota do seu amigo.

Mas Paulo não era como eu. Ele resolveu falar, e falar abertamente. Sobre as impressões que tinha tido daquela cidade; sobre qual era, na percepção dele, a idéia de religiosidade que aquele povo tinha e o que ele entendia disso. E, depois, Paulo disse algo que me fez pensar. Que Deus escolheu a cada um de nós (e dos OUTROS, falando em linguagem LOSTiana), para vivermos em um determinado lugar, e tempo (At 17:26).

Eu, por exemplo, de 1984 a 2084, se Deus assim permitir. Não foi um acidente. Talvez também não tenha tido necessariamente um motivo. O fato é que ELE achou de me colocar agora e aqui.

Pode ser que eu pudesse levar uma vida legal junto com os cristãos antigos cultuando a Deus nas catacumbas.

Pode ser que vida de esposa submissa num mundo (ainda mais) machista não me caísse bem.

Eu poderia ser como Abigail. Ou como Débora.

Ele poderia ter me feito linda como a Ester. Poderia até ter feito de mim um homem.

Ester e Raabe me parecem ser duas mulheres colocadas por Deus em horas e locais estratégicos.

Uma delas, como rainha desde a Índia até a Etópia. Outra, uma prostituta que morava em cima do muro de uma cidade chamada Jericó (e naquele tempo os muros poderiam ter a largura de estradas).

A cidade de Jericó estava em guerra com Israel; Raabe resolveu ajudar os israelenses. Como uma pessoa que não é boa. Mas sente que deve ajudar alguém e ajuda, até porque não tem nada a perder (nós nunca temos mesmo tanto a perder, ou temos?). Ester, a rainha, pode ser que fosse alguém que não levasse Deus a sério antes de ser declarada guerra aos judeus no seu reino. Como hoje seria alguém aparentemente não tem necessidade de Deus. Ou de ninguém. Uma rainha, oras. Mas, de repente, sobrevém algo sobre o seu povo, ou sobre a sua família, e a pessoa lembra das suas limitações, e de que, sobretudo, existe ALGUÉM que pode e vai ajudar. Mesmo quando o tempo fecha. Pode ser que ela fosse alguém que não conhecesse a Deus direito, alguém morna. Aí esquentou.

Já Débora e Rebeca parecem ter se projetado de uma maneira mais proposital pra estar fazendo o que Deus designasse.

Débora era profetisa. Mulher de visão. Sabia para que estava no mundo, e o que era importante. Sabia exatamente o que estava fazendo quando repreendeu a indiferença das tribos de Israel para com Deus; ou quando animou Baruque a agir. Rebeca era uma boa moça que vinha de uma boa família. Era modesta, trabalhadora, bonita e decidida. Chegou a errar, como mãe, por privilegiar seu filho Jacó. Mas é preciso muita coragem pra simplesmente casar com um homem a quem nunca se viu só por ter oferecido água do poço a um servo da família dele que estava ali de passagem vindo de um outro lugar qualquer.

Débora e Rebeca pareceriam mais com meninas criadas dentro da igreja. Mas com o firme e individual propósito de ali permanecerem. Mais parecida com a minha realidade.

Ana não era levada lá muito a sério pela sociedade. Não porque não tivesse um emprego, ou porque não fizesse faculdade. Ou fosse solteirona. Ou vivesse de fazer compras no shopping com o dinheiro dos outros. Mas porque não tinha filhos (era o estresse da época).

Aquilo torturava muito seu coração, tanto que resolveu conversar com Deus escrachadamente sobre isso. Como quando se pede, entre lágrimas, a Deus por um emprego. Não porque se passe fome. Mas porque se quer ter aquele rumo, uma satisfação pessoal que já não é egoísmo. Ana deu seu filho a Deus para profeta. Como deveríamos consagrar a Deus também nossas conquistas pessoais. Investindo de volta.

Bate-Seba foi envolvida numa confusão daquelas porque o rei se apaixonou por ela e ela engravidou dele. Mas era casada com outro. Pensa bem: tudo o que queremos não é alguém rico, inteligente, refinado e um tanto quanto sensível como... o rei Davi? Bem, pense duas vezes se ele ou você forem casados com outras pessoas. Deus castiga. De todas as formas, não esqueça: o mesmo Deus perdoa.

Tamar foi violentada, injustiçada e vítima de uma sociedade machista. Mas, sobretudo, vítima da maldade e da vingança humanas.

Nada, nada.

Deus não me escolheu pra ser nenhuma delas.

Nem pra Minnie Lou Lanier, a boa moça cristã norte-americana. Nem pra Marcolina Guimarães, a missionária que abriu caminhos no interior do Amazonas evangelizando índios.

[Para horror dos defensores da preservação alienante e deslocada da cultura indígena, que desconhecem o que viria a ser uma preservação globalizada; apoiado, por sua vez, o que não mais existe. Ao mesmo tempo que aumentam os índices de depressão entre os índios.]

E sim uma mulher do segundo milênio. Latino-americana. De fisionomia claramente miscigenada. Cujos capítulos ou linhas de vida ainda estão sendo editados via posts de blog...

Um comentário:

Madame disse...

Que lindo, que lindo!!!!